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Um Azar do Kralj

A ideia que Um Azar do Kralj quer colocar em prática: A Grande Cerimónia de Despedida do Cristiano Ronaldo

Este texto humorístico é sobre a cruzada de Cristiano Ronaldo para ultrapassar Ali Daei: Vasco Mendonça elogia fortemente o capitão da seleção nacional, mas também diz que está na hora de se retirar em grande, quiçá contra a Mongólia

Soccrates Images

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Há uns dias assisti a parte de um evento que celebrava a vida de Rui Nabeiro no dia do seu 90º aniversário. Uma pessoa fica sempre impressionada com aquele banho de gentileza e humanidade. Talvez seja porque essas qualidades parecem desaparecer aos poucos do espaço público, ou porque surpreendem quando as encontramos em alguém com um percurso tão rico e meritório a nível empresarial, alguém que podia ser um autêntico cagão se quisesse e limitar as suas intervenções públicas a diatribes sobre a carga fiscal em Portugal ou a necessidade de reformas disto e daquilo, ou talvez tudo isso me tenha tocado porque era domingo à tarde, não havia futebol de clubes e precisava de me entreter com alguma coisa.

Seja como for, o comendador Rui Nabeiro que tanto deu a este país deu mais um contributo para o melhorar, neste caso sem querer. É bonito vermos alguém que, retirado de funções executivas numa das maiores empresas nacionais, sabe manter uma presença pública e simultaneamente vai sabendo resguardar-se deixando que outros brilhem no espaço por ele criado. Transpondo isto para o universo futebolístico-taberneiro em que estas crónicas se situam, é como se Rui Nabeiro fosse hoje mais um adepto do que um protagonista dentro de campo, foi como se tivesse atacado a profundidade uma última vez, saído de campo a celebrar o seu 110º golo ao serviço do Campomaiorense, recorde anteriormente detido por Jimmy Floyd Hasselbaink, e dissesse “ok, basta de perseguir recordes, venham os próximos recordistas”.

Acho que já perceberam. Este texto é sobre a cruzada de Cristiano Ronaldo para ultrapassar Ali Daei. Tropeçámos sem saber como num dos melhores futebolistas de todos os tempos, apaixonámo-nos pelo melhor atleta da história do desporto, e agora ninguém parece ter coragem de se despedir dele. É preciso que algum funcionário da FPF incumbido de ter estas conversas difíceis com jogadores de futebol maiores do que um país seja capaz de puxar Cristiano Ronaldo à parte e explicar-lhe que o problema não é ele, somos nós os portugueses que gostariam de ver todo o esplendor de Portugal conforme indicado pelo hino. Mas não podemos simplesmente pedir a um jogador como Cristiano Ronaldo que se retire sem alarido. Não. Precisamos de lhe apresentar uma proposta irrecusável. Precisamos de um último jogo para pulverizar todos os recordes que sobram. Precisamos que a equipa se sujeite uma última vez à missão absolutamente vital de servir o melhor jogador da sua história. E precisamos da Mongólia.

Eis como eu vejo a coisa a acontecer. Em vez dos 3 dias de luto nacional proverbialmente dedicados tarde demais, proponho 3 feriados nacionais consecutivos. Idealmente, a começar numa 2ª feira de Julho, idêntica à que já vivemos em 2016. Nesses dias não há limitação de circulação entre concelhos. Há limitação de circulação entre divisões da casa. Toda a gente deve estar pregada à televisão de manhã à noite a assistir à Grande Cerimónia de Despedida de Cristiano Ronaldo. A emissão de todos os canais generalistas seria igual, excepto se Cristina Ferreira se lembrar de apresentar um novo programa, e incluiria conteúdos como:

  • Transmissão de todos os golos da sua carreira ao som de Carlos Paredes (só isto ocupa um dia de emissão)
  • Entrevistas com todos os treinadores ou colegas de Ronaldo que o viram chegar mais cedo ao treino ou sair mais tarde porque estava a treinar livres (mais umas horas, fácil)
  • Reportagem sobre as assistências favoritas do João Cancelo para o Cristiano Ronaldo
  • Votação “As 7 Maravilhas de Ronaldo” para eleger os seus 7 melhores golos
  • Emissão especial “Aqui Há Ronaldo”, um programa com chamadas de valor acrescentado que sorteará um Bugatti que o Ronaldo comprou porque achou giro mas entretanto já não conduz muito
  • Estreia de um documentário de investigação sobre crimes contra a humanidade cometidos por Ali Daei
  • Condecoração do Presidente da República ao Regufe e aos demais familiares ou membros da equipa do Cristiano Ronaldo por serviços prestados à nação

Acho que já perceberam a ideia. A Grande Cerimónia de Despedida do Cristiano Ronaldo terminaria com um embate contra a Mongólia. 11 dos nossos melhores desportistas contra 11 pessoas da Mongólia. 90 minutos, os últimos de sempre, para fazer história uma última vez. Se levaram 14 do Japão há poucos dias, imaginem contra uma seleção portuguesa comprometida com a missão de permitir a Ronaldo bater todos os recordes que lhe faltam. Um país inteiro colado à televisão por decreto presidencial, a celebrar cada golo como se fosse o último. Xau, Ali Daei. O Haaland pode jogar até aos 50 que só chega aos mesmos números se for jogar para um clube da segunda liga da Malásia. Um ídolo maior, um super herói, a ser celebrado uma última vez. Nos últimos minutos, uma surpresa: Fernando Santos pega num microfone e anuncia a toda a gente: MEUS AMIGOS, QUISEMOS GUARDAR O MELHOR PARA O FIM. TAMBÉM EU VOU À MINHA VIDA!

Marcelo sorri e aplaude. Novo decreto presidencial. Os 3 dias de festa estão quase a terminar, mas que se foda. Amanhã é feriado também. No final, celebrámos os maiores heróis da história do nosso futebol, a Mongólia recebeu o seu cachet, e os portugueses recuperaram uma selecção finalmente livre para voltar a encontrar o amor. Enfim. Não sei. A ideia precisa de trabalho, mas pensem nisso.